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Cientistas americanos criam 'Aedes' resistente ao vírus da dengue
Mosquito geneticamente modificado pode reduzir disseminação da doença em humano

O GLOBO ONLINE – 12 DE JANEIRO DE 2017

RIO — Uma nova técnica com potencial para frear a disseminação de doenças transmitidas pelo Aedes aegypti foi divulgada ontem por pesquisadores americanos. Cientistas da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins criaram mosquitos geneticamente modificados que se valem de seu próprio sistema imunológico para combater o vírus da dengue. Graças a uma alteração feita em laboratório, o organismo do inseto aumentou a produção de fatores antivirais, bloqueando a contaminação pelo vírus da dengue. Se não for infectado, o mosquito também não transmite a doença ao picar um ser humano.

Os testes não funcionaram para os vírus da zika e da chicungunha, também transmitidas pelo Aedes, mas os pesquisadores acreditam que a técnica ainda pode ser aprimorada para trazer resistência também contra esses outros tipos de arboviroses.

O Aedes se infecta com o vírus da dengue quando suga o sangue de uma pessoa que está com a doença. Desta forma, pode transmitir o vírus quando picar outros indivíduos. O estudo, publicado pelo periódico científico “Plos One”, mostra que esse mosquito produz antivirais contra a dengue naturalmente, mas em um nível tão baixo que não são capazes de eliminar o vírus. O que a nova técnica faz, de forma inédita, é estimular essa habilidade natural a partir da interferência em determinados genes que atuam sobre a área de gordura do inseto, o que seria o mais próximo de um fígado em um ser humano.

Depois dessa alteração, foi observado que a maioria dos mosquitos eliminou completamente o vírus, e que os poucos insetos que ainda se mantinham infectados registraram um nível viral baixo nas glândulas salivares, que é a via pelas quais o inseto transmite doenças.

— Se substituir uma população natural de mosquitos transmissores de dengue por organismos geneticamente modificados que sejam resistentes ao vírus, pode parar a transmissão. Este é um primeiro passo rumo a esse objetivo — diz o principal autor do estudo, o professor George Dimopoulos, do Departamento de Microbiologia e Imunologia Molecular da Universidade Johns Hopkins, nos EUA.

Agora, a equipe pretende testar mudanças genéticas na parte do mosquito que equivaleria ao intestino. Eles acham que é possível turbinar a produção de fatores antivirais também nesse órgão, tornando mais forte a resposta imunológica. Uma das apostas é de que isso possa impedir a infecção pelos vírus que causam zika e chicungunha.

Mosquitos geneticamente modificados já são usados no Brasil, mas com técnicas diferentes. Os pesquisadores da Johns Hopkins descobriram que os insetos alterados por eles vivem tanto quanto os selvagens, mas produzem menos ovos. Isto ocorre porque, provavelmente, o mecanismo que desempenha papel importante na resposta imunológica do inseto contra o vírus é o mesmo envolvido na produção de ovos. E um dos aspectos fundamentais para a proliferação de mosquitos não transmissores da dengue é que esses insetos modificados consigam procriar e passar sua característica genética para sua prole. Para surtir efeito, é necessário soltar milhões de mosquitos alterados.

— É provável que, se ativarmos isso (a modificação genética) no intestino, tenhamos um efeito muito mais forte, sem comprometer a produção de ovos — aspira Dimopoulos. — E, embora decepcionante, a ausência de supressão dos vírus da zika e chicungunha ensina algo sobre o sistema imunológico do mosquito. Isto vai nos orientar sobre como fazer mosquitos resistentes a vários tipos de vírus.

Os pesquisadores também planejam analisar como os novos Aedes competem com os mosquitos selvagens dentro de grande gaiolas, em experimentos controlados. Dimopoulos reconhece que existem preocupações quanto à soltura de mosquitos geneticamente modificados no meio ambiente: uma vez livres, não haverá mais qualquer tipo de controle sobre eles.

— É por isso que estudos extensivos de laboratório e de campo são necessários — ressalta o pesquisador. — Se os cientistas conseguirem que isso funcione, esta poderia se tornar uma maneira eficaz de controlar a doença. As pessoas teriam proteção duradoura sem ter que tomar medicação, usar redes em torno da cama ou repelentes.

INVESTIMENTO DE LONGO PRAZO

Para o especialista Antonio Carlos Bandeira, coordenador do Comitê de Arboviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), esse novo método para impedir que o mosquito transmita a dengue abre mais um caminho de intervenção importante, já que algumas das técnicas muito usadas até o momento, como fumacê e pesticidas, não se mostram eficazes.

— É preciso um investimento de médio e longo prazo no campo da modificação genética do Aedes aegypti, porque, para mostrar resultados, existe a necessidade de se liberar milhões desses mosquitos, ao longo de muito tempo — explica Bandeira. — É uma técnica nova que se junta a outros esforços do tipo. Se for confirmada a eficácia nos estudos científicos, terá que passar ainda por uma avaliação de custo, para verificar sua viabilidade econômica.

O infectologista também destaca que, provavelmente, a dengue só será erradicada como fruto de esforços conjuntos: alterações no inseto, eliminação de criadouros e vacinas.

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