CRÔNICAS CONTAGIOSAS
O dia a dia da infectologia, para todos, com uma abordagem leve e descontraída.
 
 
Crônicas Anteriores

Crônica #1
Há alguns dias atrás fui chamado para avaliar um paciente com sífilis

Crônica #2
Cuidado com a doença da vaca amarela!

Crônica #3
Bactérias sem educação

Crônica #4
Destruidores de Herois

DESTRUIDORES DE HERÓIS

Em primeiro lugar gostaria de pedir desculpas pelo prolongado período sem postagens. Quero terminar de contar a história do meu paciente com febre, mas os empregos, os projetos da SIERJ, o congresso Infecto Rio 2018 e algumas outras coisas estão atrasando os meus textos.

A minha crônica de hoje começa exatamente nesse ponto, muito comum e presente na vida de quase todos os meus colegas médicos: os múltiplos empregos e obrigações.

Estava eu me aproveitando de uma viagem de trabalho da minha esposa para trabalhar em um capítulo de um guia de antimicrobianos da SIERJ que será lançado em breve. Cansado depois de trabalhar em dois hospitais usando a minha hora de almoço para fazer a locomoção entre eles, como de costume.

Sentado, com o laptop aberto as 23:30 horas, estava pesquisando no pubmed sobre o uso de “gamificação” e suas aplicações no uso racional de antimicrobianos em hospitais. Silêncio na casa (os dois filhos dormindo), até começar a ouvir uma entrevista que acabou tirando a minha atenção. Era o programa Roda Viva na TV Cultura que foi ao ar no dia 18/06/2018 com Oziris da Silva. No programa, o entrevistado pergunta porque o Brasil não ganhou ainda nenhum prêmio Nobel. O entrevistador devolve a pergunta: “- Por que?” Osiris diz que já fez essa pergunta a 3 pessoas que avaliam os candidatos e que ouviu a seguinte resposta:

- “Vocês são destruidores de heróis.”

Nesse momento acabou o texto, o sono e o laptop. Não consegui focar em mais nada a não ser no restante da entrevista. A explicação da frase era que o próprio brasileiro não reconhecia e/ou não incentivava as grandes descobertas no Brasil. No sentido de que jogamos um contra o outro mesmo. Tanto os pesquisadores quanto a população diminuem e desmerecem o trabalho e as descobertas do seu próximo.

Impactado com a entrevista, e com uma parte do sono perdido, fui ligar a televisão para descansar um pouco a cabeça. Quando mudo de canal dou de cara com Indiana Jones e o templo da perdição (meu Indiana Jones favorito, com o Sean Connery). Já estava no meio, mas era perfeito para relaxar um pouco e dormir. Cinco minutos assistindo e aparece a cena dos nazistas queimando os livros e a frase ecoa na minha cabeça: “O Brasil é um destruidor de heróis”. Eu me pergunto quantos profissionais tem ideias excelentes que não conseguem desenvolver por falta de tempo e incentivo, abandonados lentamente na passagem dos anos pela necessidade de ter muitos empregos para poder receber um salário mais digno, para não se afastarem de suas famílias (ainda mais).

Divulgamos no facebook da SIERJ um artigo da medscape onde o infectologista é a quinta especialidade médica mais estressada e acometida pela síndrome de esgotamento (burnout) em 2017. Em 2018 avançamos para a quarta posição.

Isso é um contraste enorme por se tratar da especialidade médica que mais publica artigos científicos (de acordo com o webinar das revistas The Lancet e Cell – Elsevier, também anunciado no facebook da SIERJ), atrás apenas de clínica médica e saúde pública.

Também recentemente publicado no Clinical Infectious Diseases, a atuação precoce do infectologista está associada a menor tempo de internação e menor taxa de reinternação de pacientes em hospitais.

Minha conclusão é que os infectologistas são em geral muito comprometidos com a especialidade, com a pesquisa e com inovação. Vejo heroísmo em alguns amigos e colegas do meu dia a dia:

Dois conhecidos que fazem vídeos muito divertidos de seus deslocamentos entre hospitais na hora do almoço (vídeos infelizmente privados e sem link nas referências),

Um amigo recente que pesquisa softwares de dose individual otimizada por PK/PD no estado do Rio de Janeiro durante seu tempo livre mesmo tendo filhos pequenos (um dos próximos colunistas convidados da SIERJ),

Um colega de trabalho que trabalha em mais lugares do que eu consigo me lembrar, chega sempre cansado, mas está sempre de bom humor e muito comprometido com seus muitos pacientes,

Uma amiga sem papas na língua que faz as perguntas e comentários (públicos ou não) que ninguém quer se expor fazendo e trabalha quase 100% do dia em projetos ligados a infectologia,

Um antigo chefe que ensinou e ensina mais do que infectologia,

Inúmeros irmãos de armas que se reinventam no trabalho para interagir com outras especialidades e transformar suas realidades. O quão grandiosos todos nós seríamos se as nossas realidades fossem menos “destruidoras”? Infelizmente não consigo enxergar a nossa realidade, no que diz respeito ao desenvolvimento humano, como menos hostil do que uma sociedade que queima livros.

Ao engenheiro Osiris da Silva: meu muito obrigado pela reflexão.

Pesquisa lifestyle da medscape (2017 e 2018):
https://www.medscape.com/features/slideshow/lifestyle/2017/overview
https://www.medscape.com/slideshow/2018-lifestyle-happiness-6009320

Programa Roda Viva com Osiris da Silva
https://www.youtube.com/watch?v=m3u-E5XdzZ4

Webinar Elsevier:
https://www.brighttalk.com/webcast/16651/323923

Atuação precoce do infectologista está associado a menor tempo de internação e menor taxa de reinternação:
https://academic.oup.com/cid/advance-article-abstract/doi/10.1093/cid/ciy494/5036882