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1 – TÂNIA VERGARA – Ricardo, eu vivi o início da epidemia de aids de uma forma muito intensa e dramática, vendo, de uma hora para outra, centenas de Hemofílico adoecerem e morrerem sem que pudéssemos fazer praticamente nada para evitar. Foi muito difícil viver este período. Como e quando foi o início do seu trabalho com HIV/aids?

RICARDO DIAZ – Meu primeiro contato com a aids foi de forma fortuita e despercebida. Estava no segundo ano de medicina em 1982 e aids nem era uma doença ainda reconhecida no Brasil e foi numa aula de anatomia patológica. Nesta época os alunos eram divididos em vários grupos e cada grupo estudava um caso clínico de algum paciente que falecera no hospital São Paulo, o hospital universitário da Escola Paulista de Medicina. O meu grupo pegou o caso mais curioso para ser estudado, caso este que me chamou tanto a atenção que estou contando aqui agora, tantos anos depois. Tratava-se de um paciente que morrera de pneumonia na UTI da disciplina de pneumologia em 1980. A anatomia patológica definira o diagnóstico etiológico: Pneumocistis carinii (hoje jirovecci). Note que isto (o falecimento do paciente) ocorrera um ano antes da aids ter sido descrita no mundo. A palavra aids não foi em nenhum momento mencionado pelo professor, apesar da ênfase na imunossupressão vista neste caso, condição fundamental para que esta rara pneumonia tivesse ocorrido. Muito me chamou a atenção os detalhes do caso. Tratava-se de um paciente pouco mais de 30 anos, solteiro, fotógrafo que passava consistentemente metade de seu ano em São Paulo e a outra metade em Nova Iorque nos EUA. Cheguei a imaginar na época uma vida muito glamorosa e interessante deste paciente, que tanto sofrera nos seu final de vida, tendo um diagnostico etiológico somente no post mortem. Aids e infecção pelo HIV, de fato, nunca foi confirmado neste caso, mas sabemos ser improvável outro diagnóstico. Esta história também está no meu livro. Claro que como infectologista atuando a partir do final da década de 80, pude também testemunhar esta catástrofe chamada aids.

2 – TÂNIA VERGARA – ter escolhido, dentro da infectologia, a virologia como sua especialidade, foi por causa da aids ou escolher trabalhar com HIV foi uma consequência natural dentro da sua especialização?

RICARDO DIAZ – Esta pergunta é interessante, porque nos remete ao tema da vocação profissional. Aqui tenho que ressaltar alguns detalhes. O primeiro é que escolhi fazer medicina muito por acaso. Quando fui prestar o vestibular, não me sentia muito mais atraído por medicina do que por outras profissões. Quando optei por fazer residência em clínica médica, passara por grandes dúvidas e incertezas entre escolher ser clínico, pediatra, ginecologista ou psiquiatra. Todas estas possibilidades me encantavam igualmente. Ao final do primeiro ano de residência em clínica médica, deveríamos escolher a especialidade e minha opção oficial foi pela nefrologia. Poucas semanas antes do início do segundo ano de residência decidi mudar para infectologia, pois caso contrário não conseguiria manter a data planejada para o meu casamento de acordo com a agenda da nefrologia. Durante a residência de infectologia, fui praticamente conduzido pela Conceição Accetturi a seguir o caminho do atendimento e da pesquisa em aids. Conceição era muito dedicada e envolvida com a causa, sendo médica infectologista formada 4 anos antes de mim. Defendi o meu mestrado e doutorado em aids após pouco menos de 3 anos do término da residência médica e fui cumprir o meu sonho, que era fazer um pós doutorado nos EUA. Escolhi um laboratório em San Francisco, que conduzia sólida pesquisa em virologia e virologia molecular em aids, mantendo-me por 3 anos neste laboratório. Este movimento foi algo que definitivamente conduziu a minha vida acadêmica e de pesquisa futura. Se tiver que definir qualquer vocação de minha parte eu diria que esta seria produzir e divulgar conhecimentos. Claro que o movimento com a causa envolvendo a aids, foi e segue sendo a atividade profissional que suscita mais paixão em minha vida. Neste sentido, como quase a totalidade dos médicos infectologistas que lidam com aids, considero-me um ativista desta causa.

3 – TÂNIA VERGARA – O fato de se sentir tão abalado com a aids a ponto de passar a ser um pesadelo recorrente o fez mover-se na direção de procurar melhorar as condições de diagnóstico e tratamento da aids?

RICARDO DIAZ – Considero que seja praticamente impossível vivenciar o que o HIV faz com o corpo e com a vida das pessoas e não ficar de alguma forma afetado por toda esta realidade. É muito improvável também que se vivencie tudo o que estas pessoas passam e não se solidarize com a causa. Mas um dos detalhes que mais me motiva nisto tudo é a intrínseca curiosidade científica e vontade de entender e resolver alguns problemas usando bases científicas. Tem sido muito prazeroso observar e de certa forma participar dos avanços científicos que rapidamente emergem nesta área.

4 – TÂNIA VERGARA – você é hoje uma das maiores autoridades mundiais em aids e um ícone no nosso país. Todos nós que trabalhamos com HIV o consideramos e respeitamos demais. Como encontra tempo para cumprir uma agenda médica e de ensino tão extensa e ainda escrever um livro que fala principalmente dos seres humanos atingidos pelo HIV?

RICARDO DIAZ – Acho que não foi muito difícil. Escrever é uma atividade prazerosa para mim. Pesquisar e registrar a história, principalmente quando se vivencia parte dela, foi algo que se transformou em desejo e necessidade em um determinado momento. E felizmente, com relação ao livro, senti-me muito satisfeito com o resultado.

5 – TÂNIA VERGARA – Sabemos que hoje você trabalha numa pesquisa grande de cura da infecção pelo HIV. O que tem a nos falar sobre isso?

RICARDO DIAZ – A cura da infecção crônica pelo HIV está na ordem do dia. Alguns centros de pesquisa no mundo investem muito neste tema, e penso que é uma das necessidades nesta área. Precisamos manter a esperança de que isso aconteça entre pacientes e médicos, e mais do que isso, estou plenamente convencido que seja factível. Nosso estudo tenta de forma eclética abordar as principais barreiras a cura da infecção pelo HIV que são a replicação viral residual, a latência viral e a eliminação do HIV presente nos assim chamados santuários.

6 – TÂNIA VERGARA – O tema cura está no seu livro?

RICARDO DIAZ– Este tema está plenamente contemplado no livro, desde o histórico sobre sua plausibilidade, a cura do Tim Brown após o transplante de medula óssea e os principais resultados e perspectivas nesta área.

7 – TÂNIA VERGARA – Qual a mensagem você pretende deixar para as pessoas com o seu livro?

RICARDO DIAZ – Que o conhecimento é a forma mais eficaz, senão a única, de lidarmos com grandes problemas. Entender a história, a nossa história, e principalmente os mecanismos relacionados com os detalhes da doença como transmissão, prevenção, tratamento, repercussões do vírus no corpo dos hospedeiros é fundamental. Mais do que isso, entender que estamos na melhor hora e lugar para diagnosticar as infecções pelo HIV ainda não identificadas. Melhor hora porque temos diagnóstico preciso, tratamento e monitoramento adequados. Melhor lugar porque estamos no Brasil que disponibiliza todos os recursos para combate à epidemia a todos de forma indistinta. Hora das pessoas portadoras se cuidarem também. Para estas pessoas eu diria “esteja aqui para quando a cura chegar”.



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