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Febre por Oropouche: mais uma arbovirose negligenciada nas Américas
por Maria Paula G. Mourão
 
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A febre por oropouche é uma arbovirose tropical, causada por um Orthobunyavirus e transmitida por insetos do gênero Culicoides paraensis, conhecidos popularmente como maruim, mosquitinho-do-mangue ou mosquito-pólvora.

A doença é conhecida no Brasil desde a década de 60, sendo primeiramente descrita no estado do Pará (1961) e, posteriormente, no Amazonas (1980), associada a epidemias de doença febril ou febril-exantemática aguda. Desde então, tornou-se a segunda arbovirose em importância pelo número de casos no Brasil, até as recentes epidemias causadas pelos vírus Chikungunya e Zika.

Febre alta, cefaleia e mialgia generalizada são as queixas mais frequentemente associadas à infecção pelo vírus oropouche (OROV), cuja evolução tende a ser auto-limitada e sem complicações, em até 10 dias. Entretanto, numa abordagem mais sistemática das doenças febris agudas em uma unidade de referência do estado do Amazonas – a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) – foi possível identificar a presença de exantema (40%), manifestações hemorrágicas (15%) e até rigidez de nuca (8%) em indivíduos acometidos pela febre por Oropouche. Ainda assim, todos esses pacientes apresentaram plena recuperação, sem sequelas. Em uma outra abordagem sistemática para doença febril neurológica aguda (meningoencefalite asséptica) realizada na mesma instituição, identificou-se a presença do vírus Oropouche em líquido cefalorraquidiano de três pacientes, sendo dois deles portadores de comorbidades (infecção pelo VIH e neurocisticercose), ressaltando a possibilidade de acometimento neurológico direto ou indireto pelo OROV.

Os principais desafios em relação a essa doença consistem no diagnóstico complexo e pouco conclusivo, o que não nos permite ter uma correta e oportuna precisão do impacto da doença no Brasil. Do ponto de vista clínico e epidemiológico, é impossível distinguir a doença causada pelos diferentes arbovírus. Do ponto de vista laboratorial, os testes sorológicos ainda são de baixa confiabilidade, desenvolvidos por métodos in house, uma vez que ainda não existem testes comerciais específicos para OROV. O diagnóstico molecular é o mais confiável, mas também ainda restrito às instituições que se dedicam aos estudos científicos.

Portanto, não se trata de uma nova doença ou de uma nova ameaça à população brasileira, mas de uma condição negligenciada e pouco conhecida, que se espalha de forma silenciosa entre as diferentes regiões do país e que se tornará mais ou menos evidente à medida que haja condições de suspeição clínica e, sobretudo, de recurso diagnóstico.

Referencias consultadas:

Da Costa, V. G. et al. A silent emergence of Mayaro and Oropouche viruses in humans from Central Brazil. Int J Infect Dis. Jul 21, 2017.

Travassos da Rosa, J. F. et al. Oropouche Virus: Clinical, Epidemiological, and Molecular Aspects of a Neglected Orthobunyavirus. Am J Trop Med Hyg. 96 (5), 2017.

Mourão, M. P. G. et al. Arboviral diseases in the Western Brazilian Amazon: a perspective and analysis from a tertiary health and research center in Manaus, State of Amazonas. Rev Soc Bras Med Trop, 48 (Supp 1), 2015.

Bastos, M. S. et al. Identification of Oropouche Orthobunyavirus in the cerebrospinal fluid of three patients in the Amazonas, Brazil. Am J Trop Med Hyg. 86 (4), 2012.

Mourão, M. P. G. et al. Oropouche fever outbreak, Manaus, Brazil, 2007-2008. Emerging Infectious Diseases, 15 (12), 2009.

Maria Paula G. Mourão
Médica Infectologista e Pesquisadora da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado Professora Adjunta da Universidade do Estado do Amazonas Manaus - Amazonas - Brasil

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