COLUNISTA CONVIDADO
Estamos intervindo demais na Natureza?
por André De Lorenzi
 
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Nos anos mais recentes estamos observando uma certa tendência de utilizar métodos mais naturais ao lidar com seres humanos – e até com animais não humanos – portadores das mais diversas condições de saúde. Excelente! Ou não?

Temos que considerar que as intervenções médicas, quer sejam cirúrgicas ou farmacológicas, estão em uma aceleração constante desde que surgimos na superfície do planeta, há uns duzentos mil anos. Atualmente, pelo menos para aqueles privilegiados que têm acesso a algum sistema de saúde, não há condição patológica sem algum tipo de tratamento disponível, seja paliativo ou curativo. Observamos, com toda desenvoltura, cirurgias intrauterinas, próteses para quase tudo, transplantes genéticos, quimioterapias de extrema eficácia e antibioticoterapias que eliminam qualquer bactéria. Certo? Não, essa última não.

As unidades de terapia intensiva, por exemplo, têm um ambiente simplesmente extraterrestre. Pensem nos sons, luzes, aparelhos, tubos e marcianos com máscara e roupas estranhas que existem por ali. Fico imaginando um paciente lúcido sendo extubado para preparar sua alta. É uma cena igualzinha àquela do filme Matrix, quando Neo acorda para enfrentar a dura realidade depois de ter escolhido a pílula vermelha. Nada é menos natural do que isso. Mas, com toda a tecnologia envolvida, aqueles serezinhos procariontes e resistentes que existem há bilhões de anos, ainda são o maior desafio quando lidamos com os pacientes gravemente enfermos submetidos à terapia intensiva.

E aí, enquanto aguardamos o surgimento de um antibiótico baseado em nanotecnologia ou a utilização terapêutica de bacteriófagos, temos que fazer nossas mágicas, tentando convencer a comunidade médica (infectologistas incluídos) que devemos utilizar menos antimicrobianos. Isto é, não nos deixarmos levar pelo impulso inicial de prescrever medicamos para doenças virais autolimitadas, por exemplo. E todos sabemos como é complicado convencer alguém a fazer alguma coisa. Temos que ser muito convincentes e, para isso, precisamos ter muita fé na veracidade de nossos próprios argumentos (e essa talvez seja a parte mais difícil).

Voltamos, então, ao dilema inicial. Vamos prescrever menos, não apenas antibióticos, mas medicamentos em geral? Realmente é preocupante que algumas pessoas façam uso de inúmeras substâncias que, convenhamos, com poucas exceções, mal sabemos que consequências podem causar uma vez que se encontrem passeando de mãos dadas em nossos fluidos corporais.

Entretanto, a essência da atividade médica, toda nossa formação ocidental de medicina assistencial, nos leva a intervir na natureza. Parece óbvio. Se fossemos deixar as doenças evoluírem naturalmente, ou oferecêssemos apenas medidas genéricas de conforto, higiene e ar puro, ninguém operaria uma apendicite ou trataria uma tuberculose. Na verdade, a conclusão inevitável é que precisamos chegar a um meio termo, onde não sejamos tão invasivos e nem tão permissivos com a natureza das doenças.

Existe um risco muito grande em abrirmos mão de avanços reconhecidos. Hoje, vemos sociedades avançadas deixarem de vacinar crianças em nome de uma vida mais natural ou por temor de efeitos colaterais raros, cuja ocorrência jamais superou os benefícios inequívocos da imunização. Como consequência, pipocam surtos de sarampo na Europa e profissionais de saúde deixam de se vacinar contra influenza, colocando em risco sua própria saúde, assim como a de seus pacientes e familiares.

Pois é: “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diria minha avó Idalina. Temos que considerar todas essas particularidades, dos indivíduos e das populações, ao adotarmos nossas condutas cotidianas. Pelo menos por enquanto, acredito não haver melhor alternativa.

Sugestões de leitura:

1 - "Sapiens, Uma breve história da humanidade", de Yuval Noah Harari, editora L±

2 - "O Gene, uma história íntima", de Siddhartha Mukherjee, editora Companhia das Letras;

3 - "Além de Darwin", de Reinaldo José Lopes, editora Globo.

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