COLUNISTA CONVIDADO
Transmissão oral da Doença de Chagas: Uma realidade!
por Maria do Perpétuo Socorro Costa Corrêa
 
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Maria do Perpétuo Socorro Costa Corrêa
Transmissão oral da Doença de Chagas: Uma realidade!

A história da Doença de Chagas no Brasil tem início em 1909 por Carlos Chagas em Lassance, Minas Gerais (MG). Doença infecciosa humana sistêmica cujo agente etiológico é um protozoário flagelado, parasita do sangue e dos tecidos, o Trypanosoma cruzi. Posteriormente Oswaldo Cruz foi o pioneiro da anatomia patológica da doença (LEÃO, et al., 2013).

A infecção é normalmente transmitida a humanos por insetos Hematófagos, da subfamilia Triatominae, vulgarmente conhecidos como barbeiros. O mecanismo clássico da transmissão consiste na contaminação com as fezes do barbeiro eliminadas durante o repasto sanguíneo. Sendo os principais vetores domésticos, Triatoma infestans, Panstrongylus megistus, Triatoma brasiliensis, Rhodnius prolixus e Triatoma dimidiata, A doença em sua forma aparente compreende duas fases distintas: aguda e crônica. Cada qual com suas características peculiares. Na fase aguda pode apresentar manifestações desde síndrome febril de longa duração, até manifestações cardíacas e meningoencefalite, podendo evoluir para a fase crônica correspondente aos denominados megas: megaesôfago, megacólon e/ou cardiomegalia chagásica . Entre os mecanismos de transmissão, temos o vetorial, transfusional, por transplante de órgãos, congênita ou vertical, pelo aleitamento (na vigência de fissuras sangrantes do mamilo), acidental (em laboratório), e oral por ingestão de alimentos contaminados com parasitas oriundos de Triatomineos infectados ou da secreção das glândulas anais de marsupiais (LEÃO, et al., 2013).

A marca mais importante da epidemiologia da Doença de Chagas na Amazônia são os casos autóctones frequentes de surtos microepidêmicos, entendida como transmissão oral por contaminação de alimentos. Isso mereceu por parte da Organização Pan Americana de Saúde, em 2009, a edição de um guia para vigilância, prevenção, controle e manejo clínico da Doença de Chagas aguda transmitida por alimentos. A ingestão do sumo do açaí ou de bacaba ou de caldo de cana contaminados pela presença acidental de barbeiro infectado no processo de sua produção de máquinas elétricas (amassadeiras ou moendas), tem sido várias vezes associada à transmissão (NÓBREGA et al.,2009; PEREIRA et al.,2009; SHIKANAY-YASUDA et al., 1991; SILVA et al., 1968; TATTO et al., 2005; VALENTE; FRAIHA NETO, 1999; VALENTE; VALENTE; PINTO, 2006; VALENTE, et al., 2009).

A matéria recentemente publicada no portal Sergipano (www.portalsergipano.com) aborda a comprovação por análise laboratorial pela Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado e a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas a presença do parasita Trypanosoma cruzi na amostra de açaí consumida pela família que contraiu Doença de Chagas no município de Lábrea, que fica a 702 km de distância de Manaus.

O consumo do açaí é uma tradição nos lares paraenses, tanto pelos seus benefícios nutritivos como pelo seu sabor inigualável. Considerando que o consumo do açaí se estendeu da Amazônia para as outras regiões do Brasil, sendo consumido por grande parte da população, medidas preventivas devem ser reforçadas e vigiadas por parte dos órgãos de vigilância e Secretarias de saúde. Dentre as medidas preventivas com relação a transmissão oral da Doença de Chagas pelo consumo do fruto são recomendadas hoje a aplicação de tratamento térmico para branqueamento no caso de batedor artesanal e pasteurização no caso de produção industrial. Finalmente a fonte de iluminação deve estar instalada distante do equipamento de extração do sumo, de modo a evitar a entrada acidental de vetores e conseqüente contaminação do alimento nele processado (Organização Pan Americana de Saúde, 2009).

Estas inúmeras outras medidas estão previstas na legislação nacional pertinente – RDC ANVISA n° 218, de 24 de julho de 2005, que dispõe sobre o regulamento técnico de procedimentos higiênico sanitários para manipulação de alimentos e bebidas preparados com vegetais (ANVISA, 2005).

Quanto ao congelamento da polpa do açaí antes do consumo como medida profilática em recente estudo experimental demonstra que não constitui recurso eficaz de impedir a transmissão. O estudo afirma que o Trypanossoma cruzi é capaz de sobreviver e preservar sua virulência em mistura com sumo do açaí até por 144 horas (6 dias) à temperatura de refrigeração (4° C) e até 26 horas sob congelamento a -20° C (BARBOSA, 2010). Depreende-se que o congelamento não é um método efetivo de controle da transmissão oral da doença de Chagas (LEÃO et al., 2013).

No informe epidemiológico da Secretaria do Estado do Pará no período de 2013 a 2017 foram diagnosticados 1094 casos de doenças de chagas distribuídos em 53 municípios do Estado do Pará e 12724 casos suspeitos. Em vista dessa realidade existente apesar de todos os esforços empregados pelo governo do Estado juntamente com a vigilância sanitária, os números são expressivos e preocupantes, o que deve ser entendido hoje como uma preocupação nacional.


REFERÊNCIAS

- ANVISA. Resolução RDC n°218, de 29 de julho de 2005. Dispõe sobre o regulamento Técnico de Procedimentos Higiênico- Sanitários para Manipulação de Alimentos e Bebidas Preparados com Vegetais, 2005.
- LEÃO, R.N.Q.L., FRAIHA NETO, H., VALENTE, S.A.S., VALENTE, V.C., PINTO, A.Y.N. Doença de Chagas. Medicina Tropical e Infectologia na Amazônia. Belém: Samauma Editorial. v. 2, p. 1157-1182, 2013.
- NOBREGA, A. A., et al. Oral transmissionof Chagas disease by comsumption of açaí palm fruit, Brazil. Emerging Infectious Diseases, v. 15, n. 4, p. 653 – 655, apr.2009.
- PEREIRA, K.S. et al. Chagas’ disease as a foodborne illness, Journal of Food Protection, v.72, n.2, p. 441-446, 2009.
- SHIKANAY – YASUDA, M.A. et al. Possible oral transmission of acute Chagas disease in Brazil . Revistado Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, v.33, n. 5, p.351-357, sept-out, 1991.
- TATTO, E. et al. Surto de doença de Chagas aguda relacionada a ingestão de caldo de cana; Santa Catarina, 2005: dados preliminares. In: BRASIL, Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa de treinamento em Epidemiologia Aplicada às práticas do SUS.
- VALENTE, S.A.S., VALENTE, V.C.; FRAIHA NETO, H. Considerations on the epidemiology and transmission in the Brazilian Amazon. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v.94, supl.1,p. 395-398, 1999.
- VALENTE, S.A.; VALENTE V.C; PINTO A.Y. Epidemiologia e transmissão oral da Doença de Chagas na Amazônia Brasileira. In: ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD/ ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. Informe de La consulta técnica em epidemiologia, prevención y manejo de La transmission de La enfermedad de Chagas como enfermedad transmitida por alimentos (ETA). Rio de Janeiro, 2006. p. 21-26.


Maria do Perpétuo Socorro Costa Corrêa - Médica Infectologista pela SBI, Mestre em Medicina Tropical pela UFPA e Membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia.